À luz do fracasso da abordagem neoliberal, as organizações ativas na área da habitação apresentam para os governos e para a União Européia uma série de propostas que visam promover políticas coordenadas entre os Estados membros da UE, acompanhadas por um processo de fortalecimento dos órgãos da UE.
Sendo que não tem sentido uma Europa baseada no mercado, mas sim nos povos e nos direitos, da sua aceitação dependerá a adesão ao processo de unificação europeu.
Estabelecer as políticas de habitação e as diretivas européias sobre o direito à moradia
Atualização da Plataforma apresentada pela Aliança Internacional dos Habitantes no encontro informal dos Ministros europeus da moradia (Marselha, Novembro de 2008)
A questão da habitação é g/local
Todos os países da União Européia ratificaram os tratados internacionais e as convenções que reconhecem e protegem o direito à moradia: a Declaração Universal dos Direitos Humanos (art. 25), a Convenção Internacional sobre os Direitos econômicos, sociais e culturais (art. 11), a Convenção sobre os Direitos das Crianças (art. 27), a Convenção sobre a eliminação de todas as formas de discriminação contra as mulheres (artigos 14 e 15), a Convenção para a proteção dos direitos humanos e das liberdades fundamentais (art. 8), a Carta Social Européia (artigos 15, 16, 19, 23, 30, 31), a Carta dos Direitos fundamentais da União Européia (art. 2, comma 94).
Apesar deste reconhecimento jurídico dos Estados membros da UE, muitas vezes reforçado pelas constituições e pelas legislações nacionais, apesar da promessa adicional dos estados para o Objetivo de Desenvolvimento do Milênio n° 7-11, que prevê a melhoria da condição habitacional para 100 milhões de pessoas mal alojadas até 2020, e apesar da Estratégia de Lisboa para a inclusão social em nível europeu, o direito à moradia é cada vez mais violado.
Em outras palavras, tanto os Estados membros da União Européia como a própria UE contribuem para o fracasso desses objetivos mínimos, uma vez que é previsto que a crise global da habitação se tornará cada vez pior. Em nível global, há mais de 1 bilhão de pessoas que estão sem habitação ou mal alojadas, um nível previsto a atingir ao redor de 1,7 bilhões até 2020.
Na Europa, a crise habitacional atinge mais de 70 milhões de pessoas mal alojadas, das quais cerca de 18 milhões sob despejo e 3 milhões de sem-teto. Este número ainda está aumentando por causa dos efeitos da crise financeira global, que está fazendo perder a casa a cerca de 2 milhões de famílias européias, por causa da morosidade dos mútuos.
Estas pessoas estão excluídas do mercado habitacional e faltam políticas sociais adequadas. Os Estados membros e as autoridades locais são ambos incapazes de oferecer soluções satisfatórias para esse problema.
A crise é agravada por causa da livre circulação de investimentos especulativos dentro da UE (incluindo o Private Equity Fund, os bancos de negócios, as novas empresas de investimentos imobiliários e titularização de hipotecas), da privatização do setor habitacional público e social, da mercantilização do mercado habitacional, mesmo na maioria dos novos Estados membros, da migração e assentamentos urbanos não equilibrados, da expulsão das classes baixas, dos projetos de desenvolvimento urbano orientados para negócios e turismo, da expansão urbana a favor da burguesia, das políticas orientadas ao acesso à propriedade, tendo como resultado um enorme aumento das desigualdades e das segregações sociais intra-urbanas.
O resultado é um aumento sem precedentes do déficit de moradias dignas acessiveis, dos preços e dos aluguéis, da diminuição da segurança de locação nos contratos, com um maior aumento do risco de dívida ao crédito hipotecário, com a ameaça de despejo e outras formas de violência imobiliária que afetam os jovens, os idosos, os desempregados, os pobres, os migrantes, mas também as famílias com salário médio.
Esta situação leva ao oposto da inclusão social: marginalização, insegurança e segregação social; desenvolve a desigualdade, a especulação e a corrupção.
Enquanto a redistribuição da riqueza permanecer nas mãos dos ricos e dos especuladores, esta desigualdade vai continuar aumentando.
As conseqüências não podem ser resolvidas individualmente pelos Estados membros devido aos cortes do balanço impostos pelos mecanismos de controle do Euro e das políticas monetárias do Banco Central Europeu; por causa da baixa tributação fiscal imposta pelas políticas de mercado da UE; por causa dos altos custos da melhoria do padrão dos novos Estados membros; por causa da globalização dos mercados financeiros e do trabalho, e por causa do nível de integração econômica que o mercado europeu tem alcançado. Sem a redistribuição de recursos necessários, muito pouco pode ser feito por aqueles que, muitas vezes em um nível sub-nacional e descentralizado, tem a responsabilidade de gestir as políticas urbanas e de habitação a nível estatal.
O fracasso da abordagem liberal da UE sobre a questão habitacional
Enquanto uma plena competência da UE em relação ao setor habitacional não é aceita unanimemente, todos concordam que muitos aspetos da questão urbana e habitacional são co-determinados pelas políticas da UE, e essa intrusão não satisfaz as necessidades habitacionais.
Na verdade, em vez de trabalhar para o reconhecimento das políticas européias para o direito à moradia, a Comissão Européia reforça o aspeto mercantil da habitação através das diretivas sobre construção, seguros, os editais, os impostos, os fundos FEDER e da BEI, programas urbanos, etc.
A DG "Concorrência" está fazendo grandes incursões no setor da habitação pública em vários países, por exemplo: desafiando o sistema de investimento no setor na França (Poupança "A"); exigindo da Holanda a privatização do setor cooperativo público; contestando as vantagens fiscais das associações municipais suecas para a moradia; facilitando a emissão de ações sem imposto nos capitais por parte das empresas alemãs relacionadas à moradia; forçando as autoridades locais na venda de terrenos municipais em conformidade com as regras da concorrência, etc.
Ao mesmo tempo, o Parlamento europeu aprovou a diretiva Bolkenstein, em relação à liberalização dos serviços públicos, excluindo apenas o setor da habitação de caridade: isto significa a morte do setor da habitação pública como uma alternativa geral ao mercado livre.
Reivindicar o direito à moradia como um alicerce para a Europa que nós queremos
À luz do fracasso da abordagem neoliberal, as organizações ativas na área da habitação apresentam para os governos e para a União Européia uma série de propostas que visam promover políticas coordenadas entre os Estados membros da UE, acompanhadas por um processo de fortalecimento dos órgãos da UE.
Sendo que não tem sentido uma Europa baseada no mercado, mas sim nos povos e nos direitos, da sua aceitação dependerá a adesão ao processo de unificação europeu.
a) Reconhecer explicitamente o direito à moradia na Constituição da UE
A UE deverá adotar formalmente e plenamente as Convenções internacionais (Convenção sobre os direitos econômicos, sociais e culturais, etc.); as organizações públicas, incluindo a Comissão Européia, devem cumprir as suas obrigações legais e suas conseqüentes responsabilidades implementando políticas baseadas em tais direitos em todos os níveis:
1) A UE deve adotar Diretivas para que o direito à moradia para os sem-teto e mal alojados se torne judicial, oferecendo a garantia legal e executória do acesso a um lar seguro e digno. Se os estados não podem fornecer uma casa decente, os sem-teto devem ter o direito de viver em habitações desalugadas com taxas cobradas pelo setor público.
2) A UE deve adotar Diretivas européias para reforçar as normas jurídicas em favor ao direito à moradia, fornecendo instrumentos eficazes para todos os Estados membros.
Por exemplo:
b) Lançamento de um Novo Acordo para a coesão social através de um Serviço Habitacional Público Europeu
1) A UE e os Estados membros devem desenvolver um novo quadro de referência para um Serviço Habitacional Público Europeu, incluindo também o setor no-profit (sem fins lucrativos), social e cooperativo. Os diversos tipos de empresas da habitação não-comerciais (em função das circunstâncias nacionais), que proporcionam habitações decentes e acessíveis a todos, e que são sujeitas às regras definidas pela UE para uma gestão social e democrática, devem ter como desfrutar de um apoio público específico, como por exemplo, incentivos fiscais ou subsídios, sem que isto esteja em contradição com as normas européias.
2) Levando em conta que o 40% da energia é consumida pelos edifícios, é necessária uma Diretiva européia em matéria de edifícios a zero consumo, ou seja, que produzam a energia que consomem, antecipando o vencimento de 2018, aprovado recentemente pelo Parlamento Europeu.
3) A UE e os Estados membros devem desenvolver programas coordenados para financiar as políticas para a moradia acessível e digna.
Estes programas devem permitir:
c) Parar com a privatização, a comercialização e a desregulamentação do setor habitacional
d) Assegurar a sustentabilidade dos custos habitacionais
e) Apoiar a criatividade e a inclusão social dos moradores